terça-feira, 26 de outubro de 2010

A natureza contorcida do expressionismo


Daniele Trindade Cabral

Mais do que violento, o nosso instinto quando instigado é brutalmente contorcido, solitário e expressivo, podemos tanto ser coloridos intensamente quanto opacos em preto e branco com um estado de espírito alheio a qualquer contenção. Sim, nós somos um espelho vivo de uma corrente que aprisiona a nós mesmos: nossas convicções.

O expressionismo reflete muito mais que o estado de espírito de seu criador, mas o reflexo fidedigno de nossas próprias ascensões e misérias. Por mais que como corrente artística tenha tentado arrematar assuntos proibidos, excitantes, demoníacos, sexuais, fantásticos ou pervertidos para chocarem o que, de fato, ocorreu foi a justificativa e a representatividade do que todos nós julgávamos secretos demais para estar exposto como arte. Mas essa corrente foi além e transformou os mistérios secretos de cada um de nós em expressões sensitivas.




Grandes nomes como Portinari, Anita Malfatti, Cezanne, Van Gogh, Edward Munch (com a obra O grito -1893 – considerado o primeiro quadro expressionista), Picasso com Guernica o qual foi a grande manifestação de protesto onde o espanhol retrata o bombardeio da cidade basca de Guernica por aviões alemães durante a guerra civil espanhola. A obra de Picasso mostra a visão particular do pintor diante da agonia e do sofrimento humano.

Guernica, Sobreposição de figuras - Pablo Picasso



Somos mesmo representados com as metáforas exageradas que desembocam todas as nossas mais complexas dores. Quando vi pela primeira vez alguns quadros expressionistas e li algumas colocações de Franz Kafka em seu livro A Metamorfose senti um fluxo de realidade nua e crua, como se a loucura fizesse mais parte dos meus sentimentos do que eu mesma supunha, naqueles instantes senti com muita paixão os fatos doloridos e felizes. O drama calado e enquadrado parece mais uma foto de algum instante inquieto das nossas vidas. Impossível ser indiferente e/ou estéril diante da nossa própria imagem subjetiva.

Recentemente li um livro chamado Precisamos Falar Sobre o Kevin, de Lionel Shriver, que retrata a vida de uma família cujo filho de 16 anos comete uma chacina em sua escola, odeia a própria mãe ou pelo menos faz de conta, mata entes da família e uma criança não sem antes deixá-la cega por negligência ou participação. As perguntas e condenações nos são óbvias... de quem é a culpa? Alguém nasce com o instinto assassino? Se mata por prazer ou revolta? Os pais criaram o contexto de isolamento do filho o qual o instigou a descobrir na violência o seu alento? São perguntas e concepções que rodeiam respostas quase que automáticas.



Ao ler o livro ocorreu uma coisa que achei mágica, em cada aspecto abordado no livro hora eu sentia dor da mãe, a negligência consciente, a saudade das coisas as quais teve que abrir mão com a maternidade (nesse momento eu vi a dor oculta de toda mãe que felizmente a maternidade oculta, a auto negação, doação completa, quase anulação), senti o prazer e aversão do Kevin ao ser ácido em seus comentários e comportamentos onde me compadeci dele como nada mais do que uma vítima (quase justifiquei sua revolta tendo em vista as peculiaridades do seu núcleo familiar), depois me torno dublê do pai com o sonho da família feliz, hipocrisia, escondendo os fatos sob o tapete como válvula de escape para ganhar aprovação na estratégia de família normal e por fim, não menos intimista, me senti eu mesma diante dos noticiários execrando o adolescente e a família cujo contexto pouco me importa diante daqueles que perderam seus filhos vítimas de um assassino.

No mais, a representatividade personificada na literatura expressionista também nos arremata e aflora o autoconhecimento de forma muito eficaz, até porque, é conhecendo a si mesmo que se pode dominar o instinto que concebe o erro e trabalhar as virtudes para que nos tornemos pessoas melhores.


Ouvi um comentário sobre alguns quadros em uma exposição na qual a visitante se referiu ao estilo como desagradável e feio, mal se deu conta que a realidade de nós por dentro nem sempre é bela e agradável. Como humana, a qual em nada se difere em natureza de qualquer um outro, com ela não seria diferente. Nos olhas atrvés de nós mesmos nem sempre será aprazível aos olhos, mas aquilo que é dolorido/feio para quem vê é essencialmente libertador para quem sente.

3 comentários:

  1. com seu post perdi um pouco do preconceito e fiquei mais curioso sobre o livro do Kevin lá... qdo eu tiver na livraria vou dar uma olhada ;)

    vc já viu isso?
    http://www.youtube.com/watch?v=KdBeNdrs-3Y
    (coloquei legendas, se não aparecer, clica em cc)

    bjos

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  2. Daniela, grafo de ensinamento, confronto e, conduz caminhada precisa para dentro de si, em que cada imagem, tela exposta, está a própria face. Creio que a maior parte os seres estão no feio e desagradável, à busca contínua pelos atos benevolentes. Quando submetem-se ao chamado, curvam-se de frente o espelho, a fenda admitem, a folhagem prenuncia olhar diferente.

    Os contornos da tela com suas bordas e cores, expressões, atos, movimentos, vozes a revelarem a deformida que há no ser, por um interior que se intiluta sabedor, também o choro reprimido, a latente linha das dores almáticas, e as máscaras em pauta? A desalinhar todo o percurso dos passos e dedos na qual o diário peliado, de linhas escritas em gotas, silenciam-se, e no escondido se clama por ar.

    Abraços

    Priscila Cáliga

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  3. Oi Daniele,

    achei seu espaço virtual de um bom gosto ímpar.

    Parabéns!

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