sábado, 18 de setembro de 2010

Todos os dias comprava poucas flores, as que me cabiam com as diminutas moedas.




Abria a porta sem muita expectativa, mas com a qual me faltava ao abrir me sobrava ao colocar água em um pote nada afável de vidro, simples, vazio de sua própria cobiça de gula e fome, limpo de toda cola e descrições entendiantes.

Iluminava-se aos pequenos raios de luz que lhe caía como uma chuva de vitrilhos ao mais delicado mover das cortinas finas, os obstáculos entre a luz e sua profundidade eram poucos e se consolavam na água que ia enchendo formando bolhas de ar que espumaram no primeiro momento em que cessou sua fonte. Sim, o fazia com tal primor que o lapso no qual o fazia parecia infinito enquanto as palavras diagnosticam o fato, para a infelicidade do tempo, não o era. Repousava o cilindro frio e repleto de pequenos espelhos que lhe escorriam como lágrimas e pousavam na madeira sedenta de explicações, sugava cada gota e lhe dava a sua forma em seu cômodo, seu lugar. Estava lá: incompleto, retido, límpido, inodoro, insípido e incolor... cálice.

Repousa-lhe as arestas como seio de uma faca afiada e lhe corta fazendo-a dançar em ondas discretas e pequenas que vão se acomodando em seu novo volume, arrebata com fulgás acolhimento como se aqueles caules fossem a matéria física que lhe faltava naquela clausura, abraça-lhe com tal vigor a fazer abater resquícios de seu velcro, ampara em seu fundo cada pequena partícula que se despreende viajando em si como o pensamento em seu vagar mais lânguido até, de fato, repousar lá no fundo, escondidos, esquecidos, inobservados e enfim, inúteis. São sobras insignificantes, frangmentos, vestígios de uma fenda feita para sustentar algo mais valoroso, exatamente ornar algo.

Lá estão ainda tímidas as flores com seus caules, fendas, fragmentos e cores sustentadas com o frecor de sua provedora enclausurada. Ali se fundamenta fotografias da imagem que dali há de se desvanecer até deixar de ser aquelas as quais ali repousaram suas cores e odores. As fotografias serão janelas volumosas para a menina que habitualmente as adquiria para vê-las ornar e perfumar sua cômoda e depois vela-las em seu mais patético sentido, murchas, sem viço, secas, sem cheiro, corcundas... opacas, tão sem valor quanto os primeiros fragmentos que repousaram desde seu princípio no fundo daquele mesmo pote inoxidável, incondicionalemnte eterno em sua estabilidade, inodoro, incolor, frio.

Me permita te ver provendo novamente tais cores e formas... mesmo que lhe seja indifente, mesmo que não lhe mude o estado, mesmo que em sua forma isso não lhe afete. Orne, perfume, afague com devida nutrição aquelas que hão de vir sentir o calor daquela luz que passará febril pela janela, as aperte com sua suavidade límpida e as faça durar o mais quanto puder, porque sei que de ti e delas mesmas não posso esperar muitas lembranças e marcas senão o sentido da presença alegre em cor, mas quando esta menina olhar para seu aparador, aquele que a ti lhe deu altura e sustento, sim, aquela madeira fria guarda as marcas explícitas da sua presença, marca o seu sustento em si com a certeza que jamais serão dispensáveis, fantasiosas ou esquecíveis. Desbota-lhe com ardor e fecunda-lhe com o mesmo primor que alimenta suas flores para que ela lhe valha presença e incômodo.

Não se sinta culpado quando a ti não mais puder sustentar ou num pequeno vacilo lhe desequilibrar e ao som dos seus sinos tinar com vigor e despedar-lhe com a mesma vulnerabilidade do líquido que lhe promove volume, não desate a ferir quem lhe poupar mais rachaduras, não tente reter mais nada quando a hora de conter já tenha lhe passado o tempo. Vencido, despedaçado... libertador.


Daniele Cabral®

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