sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A arte em nós mesmos


Mais que um entretenimento passageiro que reflete o gosto típico de uma época a arte aponta um envolvimento peculiar para o que costumo chamar de razão histórica.

É importante lembrar que em todo o bojo da história houve épocas em que a beleza e o grotesco se tornaram antagônicos para definirem o quê é a conveniência artística, nesse ensejo, o “feio” foi tomado como aspecto fundamental de negação enquanto que o esteticamente belo foi aclamado para se tornar parte da história como relíquia fundamentada na serenidade do seu criador.

Para tanto, as dimensões aportadas pelo autor/criador que investiram no pitoresco podiam experimentar a dolorosa façanha da crítica de transformar o socialmente inaceitável em hostilidade visual e sensorial. Experiência esta que perpetuaria um contexto para os ulteriores mostrando o que foi tido como inimigo da sociedade e do ser humano poderia criar proporções maiores e se tornar uma repulsa milenar. Para exemplificar mais claramente podemos utilizar como exemplo a colocação do escritor italiano Umberto Eco que em um de seus estudos sobre o desenvolvimento da história da arte que mostra ilustrações alusivas aos inimigos do Estado nos livros de história para crianças da alfabetização sempre tinham desígnio monstruoso o que leva a crer que a criança carregará consigo aquela ilustração como imagem fidedigna de um povo ou nação.


As ilustrações, especialmente as de formação cultural, no ensino gradual têm uma importância ímpar na sensação de conceito do indivíduo. A imagem capturada na formação acadêmica do ser humano o ampara em formação de opinião e mais que isso, fundamenta a sua convicção de amor ou ódio por um contexto ou povo que se viu momentaneamente oposto aos seus interesses. A carga da arte ilustrativa vai muito além da perfeição de sua imagem ou do método utilizado para a sua efetivação pois avança do aspecto técnico para o subjetivo de cada um criando convicções, idéias e estratégias de postura. Invade pelo campo da subconsciência, o que é mais sensível e eficaz, se expandindo como imagem caricaturada, no entanto, tida como verdadeira.

Ainda dentro do aspecto histórico o conceito de “belo” e “feio” é mutante e se desenvolveu de modos diferentes em várias culturas e em diversas épocas. Entre os gritos e sussurros de todos os artistas o que é imutável é a certeza de que o que é bonito hoje pode repentinamente ou gradativamente deixar de ser, bem como o feio hoje pode se tornar o exótico instigante ou o belo de amanhã.


Para tanto, o que podemos tirar de lição para a nossa formação de conceitos é que ser crítico no âmbito da arte é ser crítico com nós mesmos, é importar valores e administrá-los dentro do próprio coração com olhar empírico, pesquisador e detalhista sem preconceitos e modismos. É entender que a arte, definitivamente, vem de um coração para outro coração.

Que sejamos sensíveis para aclamar o “belo” não somente como estética, mas como valor agregado ao conceito reflexivo da obra, que isso nos leve além e nos faça reconhecer no ser humano a mesma beleza conceitual, valoração, observância e sensibilidade que alcançamos na arte com tanta disposição e estudo.

Daniele Trindade Cabral

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