quarta-feira, 21 de abril de 2010

Demasiadamente humano




Para Nietzsche os desafios da vida eram vantajosos.


“ A todos com quem realmente me importo desejo sofrimento...”


Pra entender o que ele quis dizer com isso basta escalarmos a montanha preferida de Nietzsche nos Alpes Suíços. Enquanto mais alta a montanha mais bela é a sua vista, impetuosa, desafiadora e ampla, avista-se florestas, cidadezinhas, pontos quase insignificantes aos olhos de quem se encontra no topo. Daí se despreende o entendimento dos motivos pelos quais ele gostava do topo da montanha: ápice do desafio para se ter a melhor vista.

Mas chegar ao topo da montanha é sempre muito mais difícil do que ter o gosto pelo que ela pode nos proporcionar.




"Torna-te quem tu és!"


Na visão de Nietzsche para se conquistar algo que valha a pena é necessário esforço. Em se tratando de esforço ele entendia tanto na forma física quanto mental já que sofria de fortes dores de cabeça, vertigens, enjoos e solidão profunda. Toda conjutura de sofrimento o fazia dizer que nada mais eram que “dores do parto de idéias...”

Não existe uma linha reta para o sucesso e realização de um sonho, de forma alguma, o caminho é a disiplina e o esforço doloroso.

“...não falem de dons ou talentos inatos, podemos listar muitas figuras importantes que não tinham talento, mas conquistaram seu mérito e tranformaram-se em gênios . Eles fizeram isso superando dificuldades.” (Friedrich Wilhelm Nietzsche)



A bailarina

Nos parece que os passos magestosos de uma bailarina são feitos sem o menor esforço por conta da leveza aparentemente natural, no entanto, para elas as dores diárias pelos esforços em conquistar um passo perfeito são diárias e fazem parte de uma rotina de disciplina.


“...o efeito é leve e lindo aos olhos de quem vê, mas só a bailarina sabe a dor por qual passa para conseguir brilhar”


Quando vejo o movimento encantador de uma bailarina, como uma pluma deslizando sobre o palco estou observando tão somente o resultado positivo, a conquista sagrada de um grau ininterrupto de dedicação, dores nas costas, panturrilhas, bolhas nos pés, unhas amareladas...

Em todo desafio o mais doloroso, definitivamente, é ter disiplina ao optar por uma conquista, nisso Nietzsche não nos poupou da verdade.


A dor do empenho não ofusca a satisfação da vitória...


Não devemos entrar em desespero, nem desistir dos nossos sonhos. Nossa dor vem da distância entre aquilo que somos e o que idealizamos ser. Por não dominarmos a receita de como ser feliz, nós acabamos sofrendo. Mas Nietzsche não achava que bastava sofrer, se o único requisito para se sentir realizado fossem as dificuldades, todos seriam felizes.


O segredo é saber reagir bem à dificuldade!




Agora eu entendo porque ele queria ser jardineiro (irônico isso!)... engraçado, há algo animador quando observamos o emaranhado sem cor das raízes de uma planta porque ao ver o resultado estampado na cor viva e resplandescente das suas flores podemos crer que do emaranhado aparentemente sem valor nasceu o que de mais belo podemos grifar como beleza da vida.


“Nem tudo que nos faz sofrer é necessariamente ruim, bem como nem tudo que dos dá prazer necessariamente nos faz bem.”

terça-feira, 20 de abril de 2010

Entre quatro paredes...



Para todos que me conhecem não é difícil saber qual é um dos meus livros favoritos:

“Entre Quatro Paredes” Jean Paul Sartre

Jean Paul Sartre consegue ser sucinto ao falar de como é a dinâmica de relacionamento humano na busca da sinceridade filosófica, algo denso (reconheço) mas muito interessante. No campo do existencialismo Sartre mostra no texto de sua peça teatral a história de Inês, Estelle e Garcin, personagens presos entre si pelo fato de estarem presos em uma sala (inferno) que não tem saída nem janelas.



Condenados a passarem a eternidade juntos mostram, pela dinâmica do convívio, que “o inferno são os outros” pois por conveniências não conseguem alcançar a sinceridade entre eles e os motivos são simples: sentimentos!

O inferno são os outros... (Sartre)

Sartre montou com perspicácia a delicadeza da busca pela verdade. Gancin, um dos personagens se sente carente em ter alguém para discutir sobre a legalidade de sua condenação, sabe que não pode obter uma resposta sincera de Estelle pois ela será conveniente em dizer que sua condenação foi injusta pois ela o ama, já Inês também não poderá emitir uma resposta imparcial porque não gosta de Garcin. Ou seja...

Os sentimentos, na maioria das vezes, traduzem verdades convenientes ao seu portador.

Ao analisar a obra encontramos inúmeras interpretações existencialistas para o fato de se poder contar com o espírito crítico de uma pessoa. O que pessoalmente acho é que existem parâmetros que não foram citados no livro e que só chegamos a eles depois de acesa a fagulha da reflexão... Será que eu posso ser sincero, amar e não machucar quem amo com a verdade?!



Não só podemos como devemos nos esforçar para sermos dignos da nobreza do sentimento mais rematado que é o amor pelo outro. A leitura do livro nos abre arestas para compormos uma função que movimentará nossa disposição em sermos melhores no ato de gostar e vai além, porque nos instiga a questionarmos os motivos reais que nos levam a acreditar no que falamos.


“A arte de interrogar é bem mais a arte dos mestres do que as dos discípulos; é preciso ter já aprendido muitas coisas para saber perguntar aquilo que não se sabe.”


Para nos conhecermos enquanto seres humanos não nos basta proferir o que pensamos, mas observarmos de forma firme como procedemos, se torna indispensável refletir sobre o reflexo das nossas ações para o mundo.

O pai do existencialismo tem como ponto imediato de seus trabalhos a LIBERDADE. Ele remonta todo o contexto de liberdade e me intriga porque ao ler o livro Téte-a-Tete, que conta a sua história com a também filósofa Simone de Bouvoir. Fiquei atordoada com a forma como se tratavam mas não se separavam, um relacionamento que demostrava mais amor que a fidelidade hipócrita da época, no entanto tudo muito inovador e avassalador para a minha compreensão e aceitação – o que pode ser um exercício de reflexão sobre como compreender a conduta humana ao expressar sentimentos.



Como se manifesta o compromisso com o que nos rodeia?


Por fim, uma figura encantadora, um intelectual completo que me fez apreciar a obra por sua consciência crítica e peculiaridade ao explorar a nossa consciência sobre a condição humana, liberdade e conduta.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Amor...


"...Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Nos sentimos comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende a ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem. A gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava os presentes do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos... Deus está dançando conosco de rostinho colado."


(autor não informado)