terça-feira, 26 de outubro de 2010

A natureza contorcida do expressionismo


Daniele Trindade Cabral

Mais do que violento, o nosso instinto quando instigado é brutalmente contorcido, solitário e expressivo, podemos tanto ser coloridos intensamente quanto opacos em preto e branco com um estado de espírito alheio a qualquer contenção. Sim, nós somos um espelho vivo de uma corrente que aprisiona a nós mesmos: nossas convicções.

O expressionismo reflete muito mais que o estado de espírito de seu criador, mas o reflexo fidedigno de nossas próprias ascensões e misérias. Por mais que como corrente artística tenha tentado arrematar assuntos proibidos, excitantes, demoníacos, sexuais, fantásticos ou pervertidos para chocarem o que, de fato, ocorreu foi a justificativa e a representatividade do que todos nós julgávamos secretos demais para estar exposto como arte. Mas essa corrente foi além e transformou os mistérios secretos de cada um de nós em expressões sensitivas.




Grandes nomes como Portinari, Anita Malfatti, Cezanne, Van Gogh, Edward Munch (com a obra O grito -1893 – considerado o primeiro quadro expressionista), Picasso com Guernica o qual foi a grande manifestação de protesto onde o espanhol retrata o bombardeio da cidade basca de Guernica por aviões alemães durante a guerra civil espanhola. A obra de Picasso mostra a visão particular do pintor diante da agonia e do sofrimento humano.

Guernica, Sobreposição de figuras - Pablo Picasso



Somos mesmo representados com as metáforas exageradas que desembocam todas as nossas mais complexas dores. Quando vi pela primeira vez alguns quadros expressionistas e li algumas colocações de Franz Kafka em seu livro A Metamorfose senti um fluxo de realidade nua e crua, como se a loucura fizesse mais parte dos meus sentimentos do que eu mesma supunha, naqueles instantes senti com muita paixão os fatos doloridos e felizes. O drama calado e enquadrado parece mais uma foto de algum instante inquieto das nossas vidas. Impossível ser indiferente e/ou estéril diante da nossa própria imagem subjetiva.

Recentemente li um livro chamado Precisamos Falar Sobre o Kevin, de Lionel Shriver, que retrata a vida de uma família cujo filho de 16 anos comete uma chacina em sua escola, odeia a própria mãe ou pelo menos faz de conta, mata entes da família e uma criança não sem antes deixá-la cega por negligência ou participação. As perguntas e condenações nos são óbvias... de quem é a culpa? Alguém nasce com o instinto assassino? Se mata por prazer ou revolta? Os pais criaram o contexto de isolamento do filho o qual o instigou a descobrir na violência o seu alento? São perguntas e concepções que rodeiam respostas quase que automáticas.



Ao ler o livro ocorreu uma coisa que achei mágica, em cada aspecto abordado no livro hora eu sentia dor da mãe, a negligência consciente, a saudade das coisas as quais teve que abrir mão com a maternidade (nesse momento eu vi a dor oculta de toda mãe que felizmente a maternidade oculta, a auto negação, doação completa, quase anulação), senti o prazer e aversão do Kevin ao ser ácido em seus comentários e comportamentos onde me compadeci dele como nada mais do que uma vítima (quase justifiquei sua revolta tendo em vista as peculiaridades do seu núcleo familiar), depois me torno dublê do pai com o sonho da família feliz, hipocrisia, escondendo os fatos sob o tapete como válvula de escape para ganhar aprovação na estratégia de família normal e por fim, não menos intimista, me senti eu mesma diante dos noticiários execrando o adolescente e a família cujo contexto pouco me importa diante daqueles que perderam seus filhos vítimas de um assassino.

No mais, a representatividade personificada na literatura expressionista também nos arremata e aflora o autoconhecimento de forma muito eficaz, até porque, é conhecendo a si mesmo que se pode dominar o instinto que concebe o erro e trabalhar as virtudes para que nos tornemos pessoas melhores.


Ouvi um comentário sobre alguns quadros em uma exposição na qual a visitante se referiu ao estilo como desagradável e feio, mal se deu conta que a realidade de nós por dentro nem sempre é bela e agradável. Como humana, a qual em nada se difere em natureza de qualquer um outro, com ela não seria diferente. Nos olhas atrvés de nós mesmos nem sempre será aprazível aos olhos, mas aquilo que é dolorido/feio para quem vê é essencialmente libertador para quem sente.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Atlas




Daniele Trindade Cabral


Atlas , filho de Gaia com Urano , também conhecido como Atlante foi um titã grego condenado por Zeus a sustentar o céu para sempre. Em representações artísticas ele sempre aparece curvado levando o globo terrestre nas costas. Atlas teria sido o primeiro rei da mítica Atlântida. Era casado com Pleione com quem teve sete filhas, as chamadas de Plêiades. Curioso porque há uma constelação com um aglomerado de estrelas que vistas a olho nu parecem uma só e levam os nomes das filhas de Atlas. As nove estrelas mais brilhantes nas Plêiades tem os nomes das Sete Irmãs: Asterope , Mérope, Electra, Celeno, Taigete, Maia e Dríope, junto com seus pais Atlas e Pleione.



O termo atlante, em arquitetura, refere-se a um tipo de coluna esculpida em forma de um homem. O atlante apresenta os braços erguidos sobre a cabeça, como que a suportar o peso da construção onde se encontra inserido. O trabalho escultórico cria uma figura completa a três dimensões onde parece haver um homem suportando todo o peso da construção.


O Atlas é ainda a Cordilheira que ergue-se para o céu, separando o norte da África da Europa, segundo uma versão existente Atlas foi posteriormente libertado de seu fardo e tornou-se guardião dos Pilares de Hércules, sobre os quais os céus foram colocados, e que também eram a passagem para o lar oceânico de Atlântida que hoje é o Estreito de Gibraltar.


Conforme narra Platão, a Atlântida era uma ilha gigante - maior que a Ásia Menor e a Líbia juntas (ou seja, a parte asiática da Turquia e uma parte da porção norte da África). Estava localizada além do atual Estreito de Gibraltar, conhecido então por Pilares de Hércules. Ainda segundo o filósofo, os ambiciosos habitantes da Atlântida chegaram a conquistar grandes territórios da Europa e da África, até serem derrotados pelos atenienses e seus aliados, antes da tragédia encomendada pelos deuses. A lenda foi usada por Platão em dois de seus escritos, Crítias e Timeu, para descrever uma sociedade ideal, destruída em razão de seus próprios vícios. Ou seja, era um modelo para inspirar os cidadãos atenienses de sua época. A história, contada por meio de um diálogo entre Crítias e Sócrates, filósofo grego de quem o próprio Platão havia sido discípulo, espalhou-se pelo mundo árabe e, séculos mais tarde, foi recuperada no Ocidente.

Cartograficamente, ao coletivo de mapas se dá o nome de Atlas que significa coleção de cartas que representam o planeta Terra, uma clara alusão à influência do titã na história da humanidade segundo a mitologia.

Na medicina Atlas nomeia a primeira vértebra da coluna cervical, uma clara referência ao local onde sustentava o peso a que fora condenado suportar.


Ayn Rand, uma escritora e filósofa estado-unidense de origem judaico-russa escreveu o livro chamado A revolta de Atlas onde os filósofos e inventores suportam o peso de um mundo decadente enquanto são explorados pelos outros que não reconhecem o valor do trabalho e da dedicação à produtividade, se valem da corrupção, da mediocridade e da burocracia para impedir o progresso individual e da sociedade. Ayn Rand desenvolveu um sistema filosófico chamado de Objetivismo no qual assere que, dentre outros desígnios, cada indivíduo deve ser dono e controlador do próprio entusiasmo para produzir e ser eficaz em escala cada vez maior.

Atlas se tornou referência histórica para a concepção de denominações geográficas, médicas, astronômicas, filosóficas, bem como contexto de uma experiência fortalecedora. Talvez não haja melhor exemplo da perspectiva humana e de nossos conceitos que a história deste Titã grego, imagem do nosso mundo nas costas de alguém/alguns ou de nós mesmos.

Muito embora não concorde com determinados pontos da teoria objetivista de Ayn Rand o fato é que a alusão feita ao nosso tão explanado Atlas não foi em vão. A carga do mundo é muito pesada para ser suportada por poucos, é necessário que haja uma revolução de pensamento para que a vida deixe de ser uma mera distração e passe a ser o fruto de nossas opções reais com escolhas conscientes.


Escritura na base da estátua Atlas de bronze situada na 5ª Avenida, entre as ruas 50 e 51. Obra de Lee Lawrie, foi instalada em 1937. Rockefeller Center/NY:

"Eu acredito no valor supremo do indivíduo e no seu direito à vida, à liberdade e à buscar felicidade.

Eu acredito que todo direito implica em uma responsabilidade; toda oportunidade, uma obrigação; toda posse, um dever.

Eu acredito que a lei foi feita para homens e não os homens para as leis; que o governo deve servir o povo e não ser seu mestre.

Eu acredito na dignidade do trabalho, que o mundo não deve sustento a nenhum homem mas deve a todo homem uma oportunidade de criar o seu sustento.

Eu acredito que a temperança é essencial à ordem e que a economia é o requisito primário para uma sólida estrutura financeira, seja no governo, nos negócios ou nos relacionamentos.

Eu acredito que a verdade e a justiça são fundamentais para uma ordem social duradoura.

Eu acredito na santidade de uma promessa, que a palavra de um homem deve ser tão boa quanto seu vínculo; que o caráter - não a riqueza ou poder ou posição - é o valor supremo.

Eu acredito que a prestação de um serviço útil é o dever comum da humanidade e que apenas no fogo purificador do sacrifício é que a escória do egoísmo é consumida e a grandeza da alma humana é liberada.

Eu acredito em um todo-sábio e todo-amoroso Deus, seja ele chamado por qualquer nome, e que a maior satisfação do indivíduo, a maior felicidade, e a mais ampla utilidade encontram-se em viver em harmonia com a Sua vontade.

Creio que o amor é a coisa mais maravilhosa do mundo, que só ele pode superar ódio; esse direito pode e deve triunfar sobre o poder."

(John D. Rockefeller Jr.)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A arte em nós mesmos


Mais que um entretenimento passageiro que reflete o gosto típico de uma época a arte aponta um envolvimento peculiar para o que costumo chamar de razão histórica.

É importante lembrar que em todo o bojo da história houve épocas em que a beleza e o grotesco se tornaram antagônicos para definirem o quê é a conveniência artística, nesse ensejo, o “feio” foi tomado como aspecto fundamental de negação enquanto que o esteticamente belo foi aclamado para se tornar parte da história como relíquia fundamentada na serenidade do seu criador.

Para tanto, as dimensões aportadas pelo autor/criador que investiram no pitoresco podiam experimentar a dolorosa façanha da crítica de transformar o socialmente inaceitável em hostilidade visual e sensorial. Experiência esta que perpetuaria um contexto para os ulteriores mostrando o que foi tido como inimigo da sociedade e do ser humano poderia criar proporções maiores e se tornar uma repulsa milenar. Para exemplificar mais claramente podemos utilizar como exemplo a colocação do escritor italiano Umberto Eco que em um de seus estudos sobre o desenvolvimento da história da arte que mostra ilustrações alusivas aos inimigos do Estado nos livros de história para crianças da alfabetização sempre tinham desígnio monstruoso o que leva a crer que a criança carregará consigo aquela ilustração como imagem fidedigna de um povo ou nação.


As ilustrações, especialmente as de formação cultural, no ensino gradual têm uma importância ímpar na sensação de conceito do indivíduo. A imagem capturada na formação acadêmica do ser humano o ampara em formação de opinião e mais que isso, fundamenta a sua convicção de amor ou ódio por um contexto ou povo que se viu momentaneamente oposto aos seus interesses. A carga da arte ilustrativa vai muito além da perfeição de sua imagem ou do método utilizado para a sua efetivação pois avança do aspecto técnico para o subjetivo de cada um criando convicções, idéias e estratégias de postura. Invade pelo campo da subconsciência, o que é mais sensível e eficaz, se expandindo como imagem caricaturada, no entanto, tida como verdadeira.

Ainda dentro do aspecto histórico o conceito de “belo” e “feio” é mutante e se desenvolveu de modos diferentes em várias culturas e em diversas épocas. Entre os gritos e sussurros de todos os artistas o que é imutável é a certeza de que o que é bonito hoje pode repentinamente ou gradativamente deixar de ser, bem como o feio hoje pode se tornar o exótico instigante ou o belo de amanhã.


Para tanto, o que podemos tirar de lição para a nossa formação de conceitos é que ser crítico no âmbito da arte é ser crítico com nós mesmos, é importar valores e administrá-los dentro do próprio coração com olhar empírico, pesquisador e detalhista sem preconceitos e modismos. É entender que a arte, definitivamente, vem de um coração para outro coração.

Que sejamos sensíveis para aclamar o “belo” não somente como estética, mas como valor agregado ao conceito reflexivo da obra, que isso nos leve além e nos faça reconhecer no ser humano a mesma beleza conceitual, valoração, observância e sensibilidade que alcançamos na arte com tanta disposição e estudo.

Daniele Trindade Cabral

sábado, 18 de setembro de 2010

Todos os dias comprava poucas flores, as que me cabiam com as diminutas moedas.




Abria a porta sem muita expectativa, mas com a qual me faltava ao abrir me sobrava ao colocar água em um pote nada afável de vidro, simples, vazio de sua própria cobiça de gula e fome, limpo de toda cola e descrições entendiantes.

Iluminava-se aos pequenos raios de luz que lhe caía como uma chuva de vitrilhos ao mais delicado mover das cortinas finas, os obstáculos entre a luz e sua profundidade eram poucos e se consolavam na água que ia enchendo formando bolhas de ar que espumaram no primeiro momento em que cessou sua fonte. Sim, o fazia com tal primor que o lapso no qual o fazia parecia infinito enquanto as palavras diagnosticam o fato, para a infelicidade do tempo, não o era. Repousava o cilindro frio e repleto de pequenos espelhos que lhe escorriam como lágrimas e pousavam na madeira sedenta de explicações, sugava cada gota e lhe dava a sua forma em seu cômodo, seu lugar. Estava lá: incompleto, retido, límpido, inodoro, insípido e incolor... cálice.

Repousa-lhe as arestas como seio de uma faca afiada e lhe corta fazendo-a dançar em ondas discretas e pequenas que vão se acomodando em seu novo volume, arrebata com fulgás acolhimento como se aqueles caules fossem a matéria física que lhe faltava naquela clausura, abraça-lhe com tal vigor a fazer abater resquícios de seu velcro, ampara em seu fundo cada pequena partícula que se despreende viajando em si como o pensamento em seu vagar mais lânguido até, de fato, repousar lá no fundo, escondidos, esquecidos, inobservados e enfim, inúteis. São sobras insignificantes, frangmentos, vestígios de uma fenda feita para sustentar algo mais valoroso, exatamente ornar algo.

Lá estão ainda tímidas as flores com seus caules, fendas, fragmentos e cores sustentadas com o frecor de sua provedora enclausurada. Ali se fundamenta fotografias da imagem que dali há de se desvanecer até deixar de ser aquelas as quais ali repousaram suas cores e odores. As fotografias serão janelas volumosas para a menina que habitualmente as adquiria para vê-las ornar e perfumar sua cômoda e depois vela-las em seu mais patético sentido, murchas, sem viço, secas, sem cheiro, corcundas... opacas, tão sem valor quanto os primeiros fragmentos que repousaram desde seu princípio no fundo daquele mesmo pote inoxidável, incondicionalemnte eterno em sua estabilidade, inodoro, incolor, frio.

Me permita te ver provendo novamente tais cores e formas... mesmo que lhe seja indifente, mesmo que não lhe mude o estado, mesmo que em sua forma isso não lhe afete. Orne, perfume, afague com devida nutrição aquelas que hão de vir sentir o calor daquela luz que passará febril pela janela, as aperte com sua suavidade límpida e as faça durar o mais quanto puder, porque sei que de ti e delas mesmas não posso esperar muitas lembranças e marcas senão o sentido da presença alegre em cor, mas quando esta menina olhar para seu aparador, aquele que a ti lhe deu altura e sustento, sim, aquela madeira fria guarda as marcas explícitas da sua presença, marca o seu sustento em si com a certeza que jamais serão dispensáveis, fantasiosas ou esquecíveis. Desbota-lhe com ardor e fecunda-lhe com o mesmo primor que alimenta suas flores para que ela lhe valha presença e incômodo.

Não se sinta culpado quando a ti não mais puder sustentar ou num pequeno vacilo lhe desequilibrar e ao som dos seus sinos tinar com vigor e despedar-lhe com a mesma vulnerabilidade do líquido que lhe promove volume, não desate a ferir quem lhe poupar mais rachaduras, não tente reter mais nada quando a hora de conter já tenha lhe passado o tempo. Vencido, despedaçado... libertador.


Daniele Cabral®

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Demasiadamente humano




Para Nietzsche os desafios da vida eram vantajosos.


“ A todos com quem realmente me importo desejo sofrimento...”


Pra entender o que ele quis dizer com isso basta escalarmos a montanha preferida de Nietzsche nos Alpes Suíços. Enquanto mais alta a montanha mais bela é a sua vista, impetuosa, desafiadora e ampla, avista-se florestas, cidadezinhas, pontos quase insignificantes aos olhos de quem se encontra no topo. Daí se despreende o entendimento dos motivos pelos quais ele gostava do topo da montanha: ápice do desafio para se ter a melhor vista.

Mas chegar ao topo da montanha é sempre muito mais difícil do que ter o gosto pelo que ela pode nos proporcionar.




"Torna-te quem tu és!"


Na visão de Nietzsche para se conquistar algo que valha a pena é necessário esforço. Em se tratando de esforço ele entendia tanto na forma física quanto mental já que sofria de fortes dores de cabeça, vertigens, enjoos e solidão profunda. Toda conjutura de sofrimento o fazia dizer que nada mais eram que “dores do parto de idéias...”

Não existe uma linha reta para o sucesso e realização de um sonho, de forma alguma, o caminho é a disiplina e o esforço doloroso.

“...não falem de dons ou talentos inatos, podemos listar muitas figuras importantes que não tinham talento, mas conquistaram seu mérito e tranformaram-se em gênios . Eles fizeram isso superando dificuldades.” (Friedrich Wilhelm Nietzsche)



A bailarina

Nos parece que os passos magestosos de uma bailarina são feitos sem o menor esforço por conta da leveza aparentemente natural, no entanto, para elas as dores diárias pelos esforços em conquistar um passo perfeito são diárias e fazem parte de uma rotina de disciplina.


“...o efeito é leve e lindo aos olhos de quem vê, mas só a bailarina sabe a dor por qual passa para conseguir brilhar”


Quando vejo o movimento encantador de uma bailarina, como uma pluma deslizando sobre o palco estou observando tão somente o resultado positivo, a conquista sagrada de um grau ininterrupto de dedicação, dores nas costas, panturrilhas, bolhas nos pés, unhas amareladas...

Em todo desafio o mais doloroso, definitivamente, é ter disiplina ao optar por uma conquista, nisso Nietzsche não nos poupou da verdade.


A dor do empenho não ofusca a satisfação da vitória...


Não devemos entrar em desespero, nem desistir dos nossos sonhos. Nossa dor vem da distância entre aquilo que somos e o que idealizamos ser. Por não dominarmos a receita de como ser feliz, nós acabamos sofrendo. Mas Nietzsche não achava que bastava sofrer, se o único requisito para se sentir realizado fossem as dificuldades, todos seriam felizes.


O segredo é saber reagir bem à dificuldade!




Agora eu entendo porque ele queria ser jardineiro (irônico isso!)... engraçado, há algo animador quando observamos o emaranhado sem cor das raízes de uma planta porque ao ver o resultado estampado na cor viva e resplandescente das suas flores podemos crer que do emaranhado aparentemente sem valor nasceu o que de mais belo podemos grifar como beleza da vida.


“Nem tudo que nos faz sofrer é necessariamente ruim, bem como nem tudo que dos dá prazer necessariamente nos faz bem.”

terça-feira, 20 de abril de 2010

Entre quatro paredes...



Para todos que me conhecem não é difícil saber qual é um dos meus livros favoritos:

“Entre Quatro Paredes” Jean Paul Sartre

Jean Paul Sartre consegue ser sucinto ao falar de como é a dinâmica de relacionamento humano na busca da sinceridade filosófica, algo denso (reconheço) mas muito interessante. No campo do existencialismo Sartre mostra no texto de sua peça teatral a história de Inês, Estelle e Garcin, personagens presos entre si pelo fato de estarem presos em uma sala (inferno) que não tem saída nem janelas.



Condenados a passarem a eternidade juntos mostram, pela dinâmica do convívio, que “o inferno são os outros” pois por conveniências não conseguem alcançar a sinceridade entre eles e os motivos são simples: sentimentos!

O inferno são os outros... (Sartre)

Sartre montou com perspicácia a delicadeza da busca pela verdade. Gancin, um dos personagens se sente carente em ter alguém para discutir sobre a legalidade de sua condenação, sabe que não pode obter uma resposta sincera de Estelle pois ela será conveniente em dizer que sua condenação foi injusta pois ela o ama, já Inês também não poderá emitir uma resposta imparcial porque não gosta de Garcin. Ou seja...

Os sentimentos, na maioria das vezes, traduzem verdades convenientes ao seu portador.

Ao analisar a obra encontramos inúmeras interpretações existencialistas para o fato de se poder contar com o espírito crítico de uma pessoa. O que pessoalmente acho é que existem parâmetros que não foram citados no livro e que só chegamos a eles depois de acesa a fagulha da reflexão... Será que eu posso ser sincero, amar e não machucar quem amo com a verdade?!



Não só podemos como devemos nos esforçar para sermos dignos da nobreza do sentimento mais rematado que é o amor pelo outro. A leitura do livro nos abre arestas para compormos uma função que movimentará nossa disposição em sermos melhores no ato de gostar e vai além, porque nos instiga a questionarmos os motivos reais que nos levam a acreditar no que falamos.


“A arte de interrogar é bem mais a arte dos mestres do que as dos discípulos; é preciso ter já aprendido muitas coisas para saber perguntar aquilo que não se sabe.”


Para nos conhecermos enquanto seres humanos não nos basta proferir o que pensamos, mas observarmos de forma firme como procedemos, se torna indispensável refletir sobre o reflexo das nossas ações para o mundo.

O pai do existencialismo tem como ponto imediato de seus trabalhos a LIBERDADE. Ele remonta todo o contexto de liberdade e me intriga porque ao ler o livro Téte-a-Tete, que conta a sua história com a também filósofa Simone de Bouvoir. Fiquei atordoada com a forma como se tratavam mas não se separavam, um relacionamento que demostrava mais amor que a fidelidade hipócrita da época, no entanto tudo muito inovador e avassalador para a minha compreensão e aceitação – o que pode ser um exercício de reflexão sobre como compreender a conduta humana ao expressar sentimentos.



Como se manifesta o compromisso com o que nos rodeia?


Por fim, uma figura encantadora, um intelectual completo que me fez apreciar a obra por sua consciência crítica e peculiaridade ao explorar a nossa consciência sobre a condição humana, liberdade e conduta.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Amor...


"...Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Nos sentimos comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende a ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem. A gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava os presentes do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos... Deus está dançando conosco de rostinho colado."


(autor não informado)